Referencial

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Eu sou uma mulher que escolhe a roupa que vai sair não dependendo da moda ou do clima; escolhe a roupa pensando nos lugares onde poderá ser bolinada. Por isso acho que homem nenhum pensou assim: se vou sair no horário em que funcione o vagão só de homens, vou de calça clara ou bermuda; fora desse horário eu vou ter que me vestir como se fosse o meu avô, casacão e óculos.

Não conheço homem nenhum que não consiga sentar num restaurante/bar/café sozinho antes que apareça alguém "pra fazer companhia". Nem que tenha alguma dificuldade em se fazer entender quando diz "Não, não estou interessado" e similares. No cinema, ele não troca de lugar por causa das atividades extra-cinéfilas do cidadão ao lado que o sujam ou às suas roupas.

Nunca meu irmão chegou em casa dizendo que tinham dito "Quero ver você peladinho", "Hum, que tesão te chupar todinho" e coisas parecidas assim, do nada, no meio da rua. Nunca se sentiu em estado de choque porque isso foi dito na frente das suas filhas (incluídas, algumas vezes, no pacote de frases da criatura em questão).

Nunca um amigo meu se sentiu ofendido por ouvir "Homem ao volante, perigo constante", "Louro burro", "Deu pra todas as meninas? É um vadio/piranho/fácil". Nunca se leu notícia nenhuma que um assassino, depois de surrar um homem covardemente, jogou sobre o cadáver dinheiro para a polícia pensar que ele era "só" um prostituto. Ou que cresce o número de rapazes vítimas de bulimia/anorexia.

Meus amigos nunca ouviram na escola "Você é um elefante; aprenda a ser gostoso como seu irmão." Jamais passaram pelo "teste da sunga" para namorada nenhuma. Jamais foram preteridos em emprego por ter o cabelo assim ou a cintura assada. Em hipótese alguma, jamais, ganharam menos do que a colega de função.

Eles ligam a televisão e, ao que me conste, não assistem carro, seguro de saúde, prendedor de roupa, comida, refrigerante, xampu (!) sendo vendidos por um homem seminu. Não são comparados a um acessório para proporcionar prazer, como aquele célebre comercial de cerveja (fictício ou não) onde se vê alguém ser objeto de saciedade sexual de três (as costas da criatura é usada como apoio para uma garrafa de cerveja. O vídeo, no youtube, coleciona parabéns pela "criatividade").

Homem nenhum, ao usar o nome de casado (?) descobriu que, se mantiver o nome da mulher depois do divórcio, corre o risco de não poder mudá-lo se a ex morrer: para isso, tem que casar de novo, adotar o nome do novo cônjuge, separar-se e só então, poder voltar a usar somente o nome dos seus pais. Isso em pleno século XXI. Homem nenhum fica com medo quando, inadvertidamente, as filhas contam no táxi que ele é divorciado e moram só ele e as crianças.

Por fim, não conheço homem nenhum que tenha ido a uma delegacia prestar queixa contra a mulher que o surrou, humilhou, violentou - na frente dos filhos. Não conheço mulher nenhuma que, depois disso, condenada, pagou dez cestas básicas à comunidade e ficou por isso mesmo.

...

A Suzana postou isso em um comentário de uma discussão na qual nos metemos. Gostei muito, achei que valia a pena guardar para futura referência. Afinal, é muito difícil para um homem branco heterossexual entender o privilégio que ele tem só por não ter nascido mulher.

2 Responses to “Referencial”

  1. You says:

    Coisa que eu achei interessante faltar na discussão do Rapelay lá:

    Quem vai jogar aquela porcaria não é um cara adulto, que teve formação cultural pra achar que estupro é errado, mas joga pq quer ver como é que é. Quem vai jogar é um menino entre 10 e 18 anos, que não tem NENHUM condicionamento moral. Exatamente como acontece no WoW.

    Pô, WoW é um jogo tabelado como pra maiores de 13 anos, mas o que mais tem é moleque (pq menina menor que isso não curte) de 7 a 10 anos de idade, que joga pq PAPAI deu, PAPAI apóia, PAPAI acha que nada que o filho do puto faça no jogo vai ser natural de fazer na vida real também.

    Rapelay é grotesco? Sim, mas PAPAI deixa o aborto malsucedido fazer o que quer na internet, e nessa faixa etária maldita da adolescência, TUDO o que o moleque quer é fazer o que é proibido, seja estuprar, roubar, fumar maconha, ou o que seja. O estado NATURAL do adolescente é "revoltadinho" com o mundo. Esse aí hoje joga pq "é proibido", amanhã vai deixar a semente do inferno que ele gerou jogar também, pq "Ah, mas eu joguei e nem por isso virei estuprador".

    Pô, HOJE a geração que tá adulta já é uma merda por conta das porcarias que os filhos duma égua acima de 35 anos deixaram e deixam os malacabados dos filhos fazer, pq não querem se dar ao trabalho de ensinar ou cobrar porcaria nenhuma... imagina daqui 20 anos?

    O que vai ter de vagabundo batendo na mãe e traficando drogas pra pagar a assinatura do WoW, pq imagine, se for pra passar 9 horas por dia fora de casa o cara não consegue ser "server first", vai ser um absurdo, e a quantidade de retardado estuprando garotinhas na rua, pq acha que a menina vai se comportar igual no game, vai ser também enorme.

    Pô, quanto retardado não resolveu estuprar a própria filha, só de ver a leniência da polícia com os pedófilos? Todo santo dia aparece no Datena pedófilo saindo fresco, limpinho, porrões de gente que talvez não agisse passa a achar uma boa idéia...

  2. Ótimo texto. Parabéns, Su! E parabéns, Ale, por enfrentar a galera lá na discussão do Rapelay.